Na primeira pessoa, Cláudia Azevedo partilha connosco a sua experiência Fulbright, 2019-2020.  Ao abrigo da  Bolsa Fulbright para Investigação com o apoio da FCT  e no âmbito do seu doutoramento em Biomedical Sciences do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, Universidade do Porto , Cláudia passou praticamente 6 meses no Massachusetts Institute of Technology– MIT, Cambridge, MA.

 

 

«Dia 1 de Outubro de 2019, foi o dia em que fui de malas e bagagens para Boston, por um período de 6 meses. Estava entusiasmada e ansiosa por esta nova aventura, mas ao mesmo tempo com a síndrome do impostor. Afinal, como era possível? Como tinha conseguido ir para um dos melhores laboratórios da minha área? O que é certo é que conheci o Bob Langer e estive no Koch Institute/MIT, a trabalhar com a supervisão de Giovanni Traverso.

Tudo isto surgiu no âmbito do meu projeto de doutoramento. Atualmente, estou no último ano do PhD em Ciências Biomédicas do ICBAS e a desenvolver a tese no i3S, com a supervisão de Bruno Sarmento, focada em nanomedicina, drug delivery, trato gastrointestinal e modelos intestinais in vitro/ex vivo/in vivo para testar a absorção de fármacos. Após ter sido reconhecida pela Fulbright e premiada pela FLAD, lá fui saborear o sonho americano e usufruir de tudo o que Boston tem para dar.

Arranjei estadia através da plataforma “Our Home Boston” e basicamente fiquei a viver com uma família americana. Ora não há melhor maneira de conhecer os costumes e tradições, que esta. Tratava-se de um casal na casa dos 70, culto e super ativo em voluntariado, política e em programas sociais. Têm o costume de receber estudantes nas mesmas condições que eu, com particular gosto pelos portugueses. Na verdade, havia mais um português lá em casa. Foi bom ter este ambiente familiar, que me fez logo ficar à vontade. Receberam-me maravilhosamente bem, tivemos muitas conversas interessantes, permitiram-me envolver e conhecer os problemas locais (já que eram muito influentes) e, como disse anteriormente, conhecer as tradições americanas ou judias, que como exemplo recordo com ternura o jantar do Thanksgiving e do Hanukkah.

Nos primeiros tempos enquanto tratava dos papéis e trainings do MIT, tive mais tempo livre e como tal aproveitei para explorar as redondezas. Tive a oportunidade de conhecer Boston (Freedom Trail e o santuário das baleias), Cambridge (MIT, Harvard, Mount Auburn), Salem (a mítica vila das bruxas), Providence (com ar encantador), Lowell (carregada de história do tempo da Revolução Industrial), New York (sem palavras, mas foco a Broadway que superou as minhas expetativas e o vibrante jogo de Basketball), White Mountains (cheias de natureza e paisagens incríveis) e Portland (com boas lagostas). De uma perspetiva mais pessoal, e uma vez que pertenço ao Rotary, procurei envolver-me no club Rotaract e Rotary local e participar nas atividades. Para além disso, tirei partido da PAPS de Boston, da qual recomendo a futuros aventureiros, onde fiz amizades que serão para a vida.

Já que a temática das recomendações veio à baila, aproveito para falar do Revolut, que muito jeito dá, e para chamar a atenção de possíveis esquemas fraudulentos, que são frequentes nos EUA. Aconteceu-me de o cartão Revolut ser clonado e de me tirarem dinheiro da conta. Felizmente, detetei a tempo, reportei à Revolut que de imediato cancelou o cartão, mandou-me um novo e ainda me devolveu o dinheiro que tinha sido furtado. E aproveitando o tema das fraudes, lembro que é preciso ter muito cuidado na procura de casa e recomendo com confiança a Our Home Boston.

Passando este à parte à frente, Boston é uma cidade incrível com imensa coisa a acontecer. Lembro-me particularmente do espetáculo de ballet “The Nutcracker”, que foi uma delícia na época natalícia, bem como de eventos grátis, mas de igual qualidade como é o caso dos concertos da Bach Society Orquestra em Harvard. Ah, seguindo o tema da música clássica, confesso que comprei um livro na amazon e apoderando-me do piano de lá de casa, comecei a aprender a tocar piano, que era uma das coisas que há muito queria explorar.

De uma perspetiva mais profissional, confesso que a adaptação inicial foi mais desafiante. Achei um ambiente mais competitivo, individualista e quiçá mais distante em termos de relações interpessoais. Apesar do impacto e dificuldade, esta foi uma fase importante para o desenvolvimento pessoal: saber adaptar o modo de trabalho, a maneira como se lida com diferentes personalidades e culturas. A fase inicial do trabalho foi um pouco frustrante, tendo em conta o tempo gasto na otimização inesperada de técnicas. Mas uma vez mais, foi um bom ponto para treinar a paciência e resiliência. É engraçado e interessante pensar, como todos estes sentimentos se tornam maiores e mais significativos quando estamos longe, fora da zona de conforto e sem os nossos entes queridos para nos apoiarem. A aprendizagem e crescimento é mesmo assim, custa, mas tem de ser para o nosso bem! Toda esta experiência foi um bom exercício de desenvolvimento pessoal e profissional. Mas continuando…… Passada esta fase inicial, tudo começou a rolar de forma natural: o à vontade de trabalhar sozinha, o saber onde estão as coisas, a quem recorrer em situações especificas, os resultados a saírem, os eventos a aparecerem e o networking a fazer um boost na carreira.

Lição nº1: O networking é muito importante!

Lição nº2: O Twitter é o LinkedIn americano, e um facilitador de conexão.

Lição nº3: não esquecer de levar o cartãozinho de visita, para os eventos, especialmente, profissionais.

Ora bem, muitas vezes temos a falsa sensação de segurança e pensamos que seremos a novidade lá do sítio e que por isso seremos mimados. Pois, desenganem-se, como corriqueiramente se diz, “a papinha não aparece feita”, principalmente neste tipo de ambientes. Então, há que ser ativo e dinâmico, ir a seminários, eventos e fazer o tal networking! MIT/Koch institute e Boston têm imensos a acontecer all the time. Do meu interesse, destaco o evento “3D-cember: The global 3D cell culture event” onde tive um contacto próximo com a Mimetas, o seminário sobre organóides com Hans Clevers, as diversas sessões organizadas pelo LaunchBio, a lufada de ar fresco com a Shayla Rivera, atividades organizadas pelo Biotech Group, pela PAPS (que já tinha mencionado anteriormente) e pela Fulbright. O CIC Cambridge é um bom local para quem está ou quer começar um negócio, um ótimo sitio  para fazer networking e aproveitar os eventos do venture café. Para os mais curiosos e desejosos de saber as últimas novidades, desta área, aconselho Science in Boston. Por último, mas não menos importante, a European Career Fair. Um mega evento no MIT onde empresas de toda a europa, procuram e recrutam profissionais promissores. Decidi voluntariar-me e ajudar a organização com toda a logística. Como voluntária, conheci uma equipa empenhada e tive um contacto próximo com recrutadores, nos bastidores. Como participante da feira, tive a oportunidade de selecionar as empresas do meu interesse e estabelecer contacto com eles. Na verdade, foi algo que surtiu alguns frutos e tive a oportunidade de me reunir e encurtar relações com profissionais de uma empresa farmacêutica prestigiada. Algo que certamente, facilitará as minhas futuras opções profissionais aquando do término do PhD.

Como aventura que é, não podia acabar sem um clímax. Então, nada como uma pandemia saída de um filme para trazer alguma emoção. Para minha sorte, o surto deu-se já no final do meu programa. Para meu infortúnio, eventos que ansiava tiveram de ser cancelados, como o enrichment semniar da Fulbright em Washington DC, a Space Week conference no MIT, bem como outros seminários. Esta foi outra prova de fogo e um belo movimento de cintura na gestão emocional. Notícias que estouravam de um dia para o outro: adormecia com as novidades de EUA, acordava com os destaques de PT e uma ansiedade a crescer e a querer apoderar-se das noites de sono. A incerteza se iria piorar, se iria ficar presa nos EUA após o meu programa, se a minha família estaria bem. Bem, um rodopio! Mas como uma boa base que é em qualquer tipo de relação, a comunicação e partilha, com os que me são queridos, em especial o meu namorado, acalmaram o turbilhão.

No final, tudo correu pelo melhor e regressei a casa mais completa, com as malas e bagagens bem mais pesadas e uma bela história para contar!

Sem dúvida uma aventura e experiência que aprimoraram o meu desenvolvimento pessoal e profissional. E muito tenho a agradecer à Fulbright e à FLAD pelo financiamento, confiança, apoio e valorização do meu trabalho.»

Muito obrigada, Cláudia, welcome back!

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